Mesas-redondas

Mesa-redonda de abertura: Analisando a análise e analisando gêneros

DA ANÁLISE DE GÊNEROS À ANÁLISE CRÍTICA DE GÊNEROS: UMA NOVA PERSPECTIVA DE TRABALHO?

Benedito Gomes Bezerra (UPE/UNICAP)

Após as primeiras décadas de apropriações, adaptações e diálogos das teorias de gênero entre si e com outras perspectivas teóricas, pergunta-se hoje pelos rumos a seguir nesse campo de estudo, em especial no contexto brasileiro, que tem sido marcado por uma pluralidade de abordagens, objetos de investigação e públicos-alvo dessas investigações. A Análise Crítica de Gêneros tem sido apontada como um dos desenvolvimentos verificados nas teorias de gênero, quer seja particularmente no âmbito da Análise de Gêneros derivada do campo do English for Specific Purposes (BHATIA, 2015), quer como um empreendimento interdisciplinar gestado em solo brasileiro a partir dos trabalhos pioneiros do linguista José Luiz Meurer (MOTTA-ROTH, 2013; BONINI, 2013). Dado o destaque que vem obtendo essa perspectiva nos planos nacional e internacional, algumas questões se colocam para a sua compreensão e eventual utilização na pesquisa e na pedagogia de gêneros. Que relação há, e de que natureza seria essa relação, entre a perspectiva brasileira e a abordagem de Bhatia (2015)? Qual é o lugar da Análise Crítica de Gêneros no desenvolvimento de uma “escola brasileira” de estudos de gênero? Quais as contribuições da Análise Crítica de Gêneros em um panorama investigativo de tendência crescentemente “contextual”? Que perspectivas teóricas são mobilizadas para a construção da Análise Crítica de Gêneros? Neste trabalho, proponho refletir sobre essas questões a partir de um exame da literatura pertinente no Brasil e no exterior, incluindo textos teóricos e pesquisas já realizados no que provisoriamente rotulamos como as duas vertentes da Análise Crítica de Gêneros (a perspectiva de Vijay Bhatia e a perspectiva de José Luiz Meurer/Désirée Motta-Roth/Adair Bonini). Trata-se, portanto, de uma leitura exploratória orientada pelas questões acima explicitadas. Preliminarmente, essa leitura sugere que se trata de duas propostas acentuadamente semelhantes, mas que também mostram diferenças significativas. Além disso, os resultados preliminares indicam tratar-se apenas de coincidência o uso dos termos Critical Genre Analysis por Bhatia e “Análise Crítica de Gêneros” pelos pesquisadores brasileiros.

O PROJETO DE PESQUISA PELA ÓTICA DOS EDITAIS DE SELEÇÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL

Francisco Alves Filho (UFPI-CATAPHORA)

Os documentos oficiais, em geral, funcionam como uma força centrípeta em relação à estabilidade dos gêneros e, por isso, se revestem de material de pesquisa relevante para a análise de gêneros. No caso específico de pré-projetos ou projetos de dissertação/tese ao nível de pós-graduação, entre os documentos que atuam de modo centrípeto para sua organização retórica se encontram os editais de seleção publicados periodicamente pelos programas de pós-graduação no país. Em face desse cenário, o objetivo desta apresentação é identificar o grau de consenso entre programas de pós-graduação em Letras/Linguística do Brasil quanto às concepções acerca do gênero de texto/discurso projeto de pesquisa de pós-graduação e investigar se os editais explicitam valores e crenças que poderiam ser considerados como específicos para a cultura disciplinar da área de letras/linguística. O corpus da análise é composto por 22 editais de seleção de universidades de todas as regiões geopolíticas do Brasil. Foi possível reconhecer que existe pouco consenso entre os editais quanto às funções dos projetos e quanto a sua organização retórica e que, em face do enorme silêncio dos editais em relação a muitos aspectos relevantes para a escrita de projetos, há uma visível omissão dos programas de pós-graduação em letras/linguística em difundir assertivamente seus valores e epistemologias.

CULTURA DISCIPLINAR E GÊNEROS ACADÊMICOS: A PRODUÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA POR GRADUANDOS EM LETRAS

 Emanoel Barbosa de Sousa (UFPI-CATAPHORA/UFC)

Este estudo é parte da pesquisa que desenvolvemos no curso de Doutorado em Linguística na Universidade Federal do Ceará, em que refletimos sobre a maneira que a noção de cultura disciplinar colabora para que alunos de graduação em Letras elaborem projetos de pesquisa na área de Linguística.  Considerando o projeto de pesquisa um gênero ainda obscuro para aqueles que se encontram no curso de graduação, procuramos analisar projetos desenvolvidos para a realização do TCC, no Curso de Letras Vernáculas da UFPI, examinando a relação dessa construção com a cultura disciplinar a que este se submete. Para a realização deste estudo, baseamo-nos em Miller (2009 [1984]), com a noção de gênero; Swales (1990), com a noção de comunidade discursiva; Bazerman (2005), com as noções de conjunto de gêneros, sistema de gêneros e sistema de atividades; Motta-Roth, a respeito dos gêneros acadêmicos; e Hyland (2004, 2012), com relação à noção de cultura disciplinar. A partir desses autores, discutimos de que maneira a definição e inserção do projeto de pesquisa em uma cultura disciplinar auxilia o aluno na construção desse projeto e como este gênero atua no planejamento da pesquisa de TCC.  O corpus deste trabalho é composto por 10 projetos de pesquisa estudados com base no modelo CARS proposto por Swales (1990), com adaptações. Articulamos esse modelo com a proposta de Hyland (2004), que sugere uma análise de textos individuais para o reconhecimento de características da cultura disciplinar, como, por exemplo, a terminologia de uma determinada corrente de estudos. Assim, nosso estudo pode ser considerado relevante em virtude de contribuir para uma maior reflexão sobre a produção e o ensino de gêneros acadêmicos, em especial sobre o gênero projeto de pesquisa, visando a um “desobscurecimento” desse gênero na área de Linguística.

Mesa-redonda intermediária – Gêneros acadêmicos e práticas de escrita na universidade

O TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (TCC) E AS DIFERENTES PERCEPÇÕES DO FAZER CIENTÍFICO

                                                     Regina Celi Mendes Pereira (UFPB/PROLING/GELIT/CNPq)

As atividades desenvolvidas no projeto Ateliê de Gêneros Acadêmicos (ATA) no âmbito das ações do Programa Nacional de Pós-doutoramento Institucional (PNPD/CAPES/CNPq), empreendido no Programa de Pós-graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e vinculado ao Grupo de Estudos em Letramentos, Interação e Trabalhos (GELIT/UFPB/CNPq), têm se voltado em duas direções. A primeira focaliza a influência do campo de conhecimento na materialidade textual-discursiva; a segunda busca a didatização da escrita acadêmica (resumo, resenha e artigos científicos) em disciplinas de Português Instrumental, Metodologia Científica, Leitura e Produção de Textos I (LPT I), Pesquisa Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa (PAELP) e a promoção de eventos extracurriculares que abordem o tema. Nesta apresentação, relataremos as experiências vivenciadas no III WORKSHOP DE LETRAMENTO ACADÊMICO e II ATELIÊ DE LETRAS. O evento proporcionou reflexões e conhecimentos sobre práticas de letramento acadêmico a alunos de graduação e de pós-graduação, especificamente relacionados aos processos de elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em diferentes áreas de conhecimento, no qual focalizamos os problemas e dificuldades mais recorrentes e enfrentados pelos graduandos e concluintes. Os resultados indicaram a estreita relação entre a área de conhecimento (BHATIA, 2001) e os modos de desenvolver pesquisa, o que ficou evidente na seleção do objeto de investigação, nas escolhas lexicais e nos posicionamentos enunciativos (BRONCKART, 1999) adotados por cada expositor. Além disso, verificou-se que as maiores dificuldades dos concluintes no desenvolvimento do TCC concentram-se, particularmente, no nível organizacional que compreende o tratamento dado ao conteúdo temático e a planificação do texto (BRONCKART, 2006, 2008).

LETRAMENTO ACADÊMICO DE ESTUDANTES SURDOS DE GRADUAÇÃO NA TRADUÇÃO/RETEXTUALIZAÇÃO PARA LIBRAS DE TEXTOS EM PORTUGUÊS

Maria Lourdilene Vieira Barbosa (UFPI-CATAPHORA)

Discutiremos aspectos de letramento de alunos surdos a partir da análise descritiva e interpretativa de textos retextualizados e sinalizados em Libras, por estudantes surdos, a partir da leitura de um resumo acadêmico escrito em português. Segundo Marcuschi (2010 [2000]), a retextualização consiste na transformação de um novo texto a partir de um texto preexistente, podendo ocorrer da modalidade oral para a modalidade escrita, ou vice-versa, bem como da modalidade oral para a oral e da escrita para a escrita. Antes de Marcuschi, Travaglia (2013 [2003]) utiliza o termo retextualização para se reportar à tradução entre línguas, numa abordagem textual, partindo do princípio de que não traduzimos línguas, nós traduzimos textos. Afirmar isso significa entender que o processo de tradução envolve uma nova produção textual, sendo que, no processo de tradução, os elementos do texto original voltam, porém regidos por outras regras, uma vez que pertencem a outra língua e a outra cultura. No caso da tradução para Libras de textos em português por alunos surdos, os “tradutores” levam em conta a organização e a estrutura da língua de sinais. Entendemos que a organização visual espacial da Língua Brasileira de Sinais requer do tradutor mais do que a habilidade de produzir textos, uma vez que, no processo de tradução para Libras, os elementos linguísticos do português são transformados em elementos linguísticos da Libras. Assim, informações do texto original, escrito em português, reaparecerão no texto retextualizado, sinalizado em Libras. Porém, essas informações são, por um lado, organizadas a partir da estruturação linguística da Libras e, por outro, ressignificadas a partir da interpretação feita pelo surdo do texto original escrito em português.

CULTURA DISCIPLINAR: DESCORTINANDO CARACTERÍSTICAS LINGUÍSTICAS EM JUSTIFICATIVAS DE PRÉ-PROJETO DE PESQUISA

Bruno Diego de Resende Castro (UFC/CATAPHORA-UFPI)

Nossa fala tem como objetivo analisar sintaticamente as justificativas de pré-projetos de pesquisa e discutir como as características linguísticas de um texto refletem as relações sociais e as características de uma cultura disciplinar. O foco da nossa análise serão as construções em voz passiva, que ocorrem com bastante frequência em projetos de pesquisa, e, no corpus em especifico, constata-se que o seu uso causa problemas de compreensão do texto. Partimos do pressuposto de que os textos revelam como as relações sociais dentro da prática acadêmica se mantêm, como os membros constroem conhecimento e como é possível defender o conhecimento construído (HYLAND, 2004). Logo, se descortinarmos sentidos e ideias veiculados pelas estruturas linguísticas, podemos entender uma disciplina e, consequentemente, facilitar o aprendizado dos alunos sobre as práticas de escritas na academia. Desse modo, para relacionarmos os padrões textuais praticados e as interações sociais promovidas pela escrita na comunidade científica, utilizamos como teóricos base Bakhtin (1997 [1979]), Miller (2009 [1984]), Hyland (2014) e Swales (1981). Trata-se de uma análise qualitativa e interpretativa, na qual investigamos cinco justificativas de pré-projetos de candidatos aprovados para o mestrado em Letras da Universidade Federal do Piauí, os quais compõem o corpus de pesquisa do Núcleo Cataphora da referida universidade.

Mesa-redonda de encerramento: Letramento, gêneros textuais e tecnologias digitais

LEITURA EM AMBIENTES DIGITAIS: INVESTIGANDO HABILIDADES E REVENDO SABERES DOCENTES

Aurea Zavam (UFC/UFMG)

A leitura online, como se sabe, não exige competências muito diferentes das que são exigidas na leitura off-line (cf., por exemplo, Ribeiro, 2009; Coiro, 2011). Apesar dessa constatação, não se pode deixar de reconhecer que o universo digital se caracteriza como sistema de informação aberto e dinâmico e é justamente essa dinamicidade, responsável pela mudança, quase que diária, na estrutura, forma e conteúdo dos textos, que demanda por parte dos leitores esforço cognitivo e habilidades peculiares. Nesse sentido, o leitor se vê diante da leitura de textos multimodais cada vez mais complexificados, que vão requerer mais do que as habilidades costumeiramente trabalhadas e desenvolvidas na sala de aula. Assim, faz-se necessário saber mais sobre como os leitores de ambientes digitais operam com informações encontradas em múltiplas fontes e, consequentemente, como lidam com a navegação. Partindo dessa necessidade, pretende-se, nesta comunicação, tratar do que as habilidades e estratégias demonstradas por alunos da 8ª série do ensino fundamental diante da busca por informações em sites da internet podem dizer sobre o ensino da leitura em tempos digitais. Os dados que subsidiam a discussão constituem parte de uma pesquisa, de pós-doutoramento, realizada no âmbito do projeto Leitura online, desenvolvido pela professora Carla Coscarelli, da UFMG. Considerando a leitura como uma atividade complexa (Coscarelli e Novais, 2010), a pesquisa, assim como o projeto, busca saber mais sobre a forma como os padrões de leitura vão se adaptando aos novos tipos de texto, como os multimodais, para, então, (re)pensar (orient)ações pedagógicas que visem o desenvolvimento de habilidades necessárias à proficiência na leitura em ambientes digitais com o intuito de subsidiar a prática do professor em sala de aula, e consequentemente contribuir para a formação de leitores mais preparados para a sociedade da informação digital em que vivem e interagem.

DA ESCRITA ESCOLAR À INTERNET: PONTES PARA AS NOVAS PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO MÉDIO PROFISSIONALIZANTE

José Ribamar Lopes Batista Júnior (UFPI/LPT/CNPq)

O uso de laboratórios de informática em escolas do ensino básico tem permitido a evolução de práticas educacionais por contemplar o uso de tecnologias que permeiam o cotidiano social. Em Floriano/PI o Colégio Técnico tem estabelecido sistemáticas de ensino que vão do primeiro ao terceiro anos, em gradação de complexidade. Para tanto, o Laboratório de Leitura e Produção Textual – LPT voltado ao Ensino Profissionalizante tem funcionado como ponte entre o ensino escolar tradicional e o ensino profissional e tecnológico. Biblioteca, Radio Escolar, Som do Intervalo, Polêmicas em Debate, Arte Corredor, Leitura em Cena, Ação Legal, Quer Que Eu Desenhe?, Corpo em Cena, Oficinas LPT, além de viagens e programações extracurriculares foram algumas das estratégias adotadas que envolvem o letramento e a formação colaborativa com o uso da internet como ferramenta. Tais atividades contribuem para o enriquecimento cultural e para a capacidade e desenvoltura em ambientes sociais ao passo em que permitem a complementação curricular extrapolando a proposta mínima. Os resultados apontam para a possibilidade de integração entre o mundo social e o escolar, para o uso de tecnologias digitais redes sociais e internet como ponte entre os conhecimentos, bem como para a emancipação por parte do aluno de sua prática de aprendizagem quando associada ao uso tecnológico.

HABILIDADES TECNOLÓGICAS E FAZER ACADÊMICO: O QUE (NÃO) ENSINAMOS AOS GRADUANDOS E PÓS-GRADUANDOS?

Leila Rachel Barbosa Alexandre (UFPI- CATAPHORA/UFMG)

Ainda que se possa pensar que a prática com textos na universidade exige apenas conhecimento sobre estrutura de gêneros, filosofias e procedimentos acadêmicos, há um componente que dá suporte a essa prática: a utilização de recursos tecnológicos. Embora vários desses recursos tecnológicos já existissem antes do advento do computador, aqueles que vieram com seu surgimento apresentaram novas características e passaram a ser rapidamente utilizados e até exigidos, em alguns casos, no meio acadêmico. Nesse caso, a prática acadêmica direciona recursos tecnológicos a serem aprendidos e utilizados, como é possível perceber, por exemplo, em situações como as de utilização de editores de texto, editores de slides ou mesmo de motores de busca na internet. Diante desse cenário, objetivamos, em nossa fala, discutir quais habilidades tecnológicas, especialmente as digitais, são exigidas pelo fazer acadêmico dos graduandos e em que medida a própria universidade os ajuda a desenvolver essas habilidades. Considerando nosso objetivo, dentro da crença de que a prática com textos é situada, serve para que as pessoas realizem ações e exige habilidades específicas, nos reportaremos às práticas de letramento digital — nos apoiando nas ideias veiculadas por Ribeiro (2008), Novais (2012) e D’Andrea (2007), principalmente —, relacionando-as com as práticas de letramento acadêmico — com base no que é apresentado por Lea e Street (1998, 2006) e Nelson e Hayes (1988). Tomaremos ainda as percepções dos estudos retóricos de gêneros, em especial de Miller (1984, 2009), para defender a ideia de que habilidades tecnológicas são relacionadas à utilização de suportes ou conjuntos de affordances específicos, que influenciam as práticas textuais que acontecem neles, as quais, por sua vez, são construídas pela interação de outros diversos fatores situacionais também recorrentes e são relacionadas a gêneros e comunidades de prática específicos.

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