Conferência, Debate e Mesas-redondas

Conferência

GÊNEROS: DISPOSITIVOS DE INTERLOCUÇÃO QUE ORGANIZAM AS INTERAÇÕES ENTRE SERES HUMANOS

Adail Sobral (UCPEL)

No meu modo de ver, em tudo o que se refere a gêneros, a base, aquilo que faz deles mais do que formas, modalidades, objetos estáticos, é a relação entre interlocutores. Ainda que se costume afirmar essa base, vêm-se muitas vezes a negação desse princípio na prática, já que se acaba nesses casos dando primazia à forma, à estrutura, aos recursos linguísticos estritos, desprezando o que há de radical na concepção de gênero formulada por Bakhtin, que tem sido objeto de interpretações textualizantes. Pretendo demonstrar aqui que os gêneros, “formas relativamente estáveis de enunciado”, são recursos translinguísticos de que lançam mão os usuários das línguas para realizar seus projetos enunciativos. Trata-se de dispositivos enunciativos potentes que transcendem, sem delas prescindir, a língua-sistema e as estruturas textuais, entre outros aspectos.

Debate CATAPHORA e DILETA – Gêneros acadêmicos e culturas disciplinares

CENAS DE ESCRITA DE PROJETOS DE DISSERTAÇÃO

Núcleo de Pesquisa em Texto, Gênero e Discurso CATAPHORA (UFPI)

O gênero projeto de dissertação, conquanto sua relevância na vida acadêmica e profissional de pesquisadores, tem sido pouco estudado no campo da Análise de Gêneros, principalmente no Brasil. Tendo em vista esta lacuna, o objetivo desta comunicação é discutir implicações da investigação sobre o gênero projeto de pesquisa efetuada no Núcleo Cataphora em relação aos modos se dá como a elaboração escrita de exemplares do gênero bem como em relação aos modos como os metagêneros orientam a produção de projetos. Faz parte do corpus de análise projetos de dissertação da área de Linguística e de História do Brasil de uma universidade federal brasileira. Algumas questões têm emergido mais claramente da pesquisa: a) o significativo status quo devotado à fundamentação teórica; b) a valorização dos saberes estabelecidos e estabilizados e, em contrapartida, pouca ênfase em relação ao que ainda não se sabe; c) uma presença marcante de presumidos sociais nos metagêneros, o que aponta para uma dimensão escondida para este letramento; d) uma significativa valorização dos objetivos e das possíveis aplicações dos resultados da pesquisa.

GÊNEROS ACADÊMICOS: UM MOSAICO DE CULTURAS DISCIPLINARES

Grupo de Pesquisa em Discurso, Identidade e Letramento Acadêmicos – DILETA (UECE)

Em 2011 iniciei o projeto de pesquisa Práticas Discursivas em Comunidades Disciplinares Acadêmicas que partiu de minha  preocupação com o ensino dos gêneros acadêmicos nas diversas graduações. Minha experiência com a disciplina Produção de Gêneros Acadêmicos em cursos variados me levou a  perceber que  a escrita acadêmica longe estava de ser uma realidade homogênea. A prática docente me levou à hipótese de  que as diversas áreas percebiam  e construíam diferentemente os mesmos gêneros. Foi, pois, a partir desta inquietação que iniciamos a investigação sobre a produção do gênero Artigo Acadêmico nas áreas de Medicina, Linguística, Nutrição, Psicologia e Direito. Para essa investigação, partimos dos pressupostos teóricos de ken Hyland (1998/2000)  sobre os conceitos de  Disciplina e de Cultura Disciplinar a partir dos quais  o autor nos mostra que  cada disciplina pode ser vista como um grupo com normas, nomenclaturas, campos de conhecimentos, conjuntos de convenções, objetos e metodologias de pesquisa, constituindo uma cultura disciplinar particular que se manifesta e é também construída pelos respectivos discursos disciplinares. Tais culturas diferem em torno de dimensões cognitivas e sociais, apresentando contrastes não somente em seus domínios de conhecimento, mas também em seus objetivos, comportamentos sociais/discursivos, relações de poder, formas de estruturar os argumentos e de lidar com os gêneros escritos e orais na academia. Para a operacionalização teórica e metodológica da análise dos exemplares dos artigos das áreas disciplinares mencionadas, realizamos um diálogo entre os conceitos desenvolvidos por Hyland (1998/2000) e a teoria/metodologia   de análise de gêneros desenvolvida por J. Swales (1990/2004). A esse diálogo teórico/metodológico atribuímos a denominação de Análise Sociorretórica de Gêneros, uma vez que acreditamos que a descrição da configuração retórica dos exemplares dos gêneros somente pode ser explicada à luz das crenças das culturas disciplinares sobre a construção, circulação e consumo desses gêneros. Assim, ao longo desses anos de pesquisa, desenvolvemos uma metodologia para a descrição/compreensão de Culturas Disciplinares como pano de fundo para a descrição/compreensão das características retóricas e linguísticas prototípicas dos gêneros acadêmicos. Como resultado desse empreendimento de investigação, surgiu, em 2017, o  grupo de pesquisa Discurso, Identidade e Letramento Acadêmicos (DILETA). Atualmente, o DILETA tem se dedicado ao aperfeiçoamento dos procedimentos metodológicos para a descrição de culturas disciplinares e investigado novas áreas, como Educação, História, Comunicação Social e as diversas subáreas da grande área da Saúde. Esta fala tem, pois, como objetivo apresentar um panorama dos achados  acumulados  ao longo desses anos de pesquisa.

Mesa-redonda: Gêneros no mundo do trabalho e sua aplicabilidade no ensino instrumental de línguas

ANÁLISE DE GÊNERO EM CONTEXTO PROFISSIONAL: UM ESTUDO DE MEMORANDOS NO ÂMBITO DO IFPE/CAMPUS RECIFE (1973-2014)

Valfrido da Silva Nunes (IFPE)

Inicialmente, convém sublinhar que as pesquisas sobre gêneros (“textuais” e/ou “discursivos”) em ambientes de trabalho despontam como mais um campo de práticas discursivas que tem despertado a atenção de pesquisadores diversos, seja no Brasil, seja no exterior. A propósito, como afirmam Bawarshi e Reiff ([2010] 2013, p. 165-166), “quem estuda os gêneros dos ambientes de trabalho está interessado nos processos pelos quais os escritores aprendem gêneros e se iniciam na comunidade, como utilizam os gêneros na produção e transmissão do conhecimento e como os gêneros restringem ou possibilitam as ações sociais dos participantes nas organizações profissionais”. Ante isso, esta apresentação tem como objetivo relatar e discutir o uso de gêneros em contexto profissional, mais especificamente o memorando na esfera pública. Para tanto, será utilizado um corpus, constituído por 60 (sessenta) memorandos, coletado no Arquivo Geral do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), Campus Recife, contendo exemplares autênticos desse gênero, produzidos no período compreendido entre 1973-2014. A discussão fundamenta-se numa abordagem que põe em diálogo categorias advindas de diferentes abordagens teóricas dos estudos de gêneros, tais como esfera discursiva (ADD), gênero como ação social (ERG), sistema de gêneros (ERG), metagênero (ERG), propósito comunicativo (ESP) e tradição discursiva (TD). Todas essas categorias serão analisadas a partir do objeto de estudo em discussão – o memorando –, numa intrínseca relação com as práticas profissionais que o engendram. Dizendo de outra maneira, o construto genérico em tela será analisado tanto de um ponto de vista contextual quanto textual, numa relação imbricada. Por fim, pretende-se sinalizar algumas implicações do estudo realizado, especialmente para o ensino instrumental de língua portuguesa.

ANÁLISE DE GÊNERO TEXTUAL NA CONCEPÇÃO SOCIORRETÓRICA: ESTUDO DO OFÍCIO E SEUS USOS NA CORRESPONDÊNCIA ADMINISTRATIVA OFICIAL E EMPRESARIAL

Maria Inez Matoso Silveira (UFAL)

Este trabalho teve como objetivo estudar o ofício, gênero textual tradicional e de uso muito frequente na correspondência administrativa oficial e empresarial, considerando o contexto enunciativo de sua produção e recepção, sua organização retórica, seus aspectos textuais e seus dispositivos retórico-gramaticais. O estudo fundamenta-se na concepção sociorretórica de gênero textual (Miller, 1984) e, para a descrição e análise, utilizou-se uma adaptação dos modelos de análise de gênero de Swales (1990) e de Bhatia (1993). O corpus utilizado consistiu de 48 exemplares de ofício, que, para efeito de análise, foram classificados em 4 tipos de ofício, de acordo com os propósitos comunicativos a que serviam, tendo-se, assim, o ofício de solicitação, o ofício de encaminhamento de documento, o ofício de convite para evento e o ofício de informação e esclarecimento. A análise da estrutura retórica dos ofícios do corpus revelou a característica mais relevante desse gênero – a heterogeneidade –, que aparecia mesmo entre os exemplares que se destinavam ao mesmo propósito comunicativo. A despeito disso, foram detectadas algumas regularidades que asseguravam o caráter prototípico do gênero. Quanto à análise dos aspectos textuais e dos recursos retórico-gramaticais, considerou-se, primeiramente, o registro linguístico em que se escrevem os ofícios – a linguagem burocrática –, enfatizando suas principais características e suas marcas linuísticas na superfície textual dos exemplares analisados. Quanto às implicações pedagógicas da pesquisa, a autora considera que os resultados da análise podem fornecer subsídios relevantes ao ensino instrumental da língua materna, especialmente no que respeita ao ensino da chamada redação oficial e à escritura de ofícios, devendo-se enfatizar a eficácia retórica através da diversificação e flexibilização dos recursos discursivos e linguístico-gramaticais adequados aos vários propósitos comunicativos que o gênero em tela pode veicular.

Mesa-redonda:  “Multimodalidade no trabalho com texto e leitura”

O CONCEITO DE TEXTO NOS ESTUDOS DA MULTIMODALIDADE NO CONTEXTO BRASILEIRO

 Thais Ludmila da Silva Ranieri (UFRPE)

Nos últimos anos, os estudos da multimodalidade vêm ganhando um espaço cada vez maior dentro dos estudos da linguagem no Brasil. Nesse tempo, houve um crescimento no número de pesquisas que se dedicam a investigar os sentidos produzidos e pretendidos pela associação das semioses diversas, em especial, dentro da Linguística de Texto. Tal casamento implicou em um alargamento do conceito de texto, saindo de uma abordagem intrinsecamente linguística para abarcar outras linguagens (RAMOS, SILVA, 2016). Diante desse cenário, o conceito de texto se alargou, como já apontado por Cavalcante e Custódio Filho (2010) em uma releitura de Koch (2004) e acabou por permitir uma série de novos conceitos que emergiram nesses últimos anos nas pesquisas brasileiras. No contexto brasileiro, podemos nos deparar com uma série de novos conceitos de texto ou subconceitos que buscam marcar a relação do verbal com as outras semioses em seus estudos. Assim, encontramos texto multimodal (RAMOS, 2012; ROJO, 2012; DIONÍSIO, VASCONCELOS, 2013; CANI, COSCARELLI, 2016), texto visual (BELMIRO, s/d), texto verbo-visual (BRAIT, 2013), texto verbo-imagético (BERNARDINO SILVA, 2014), entre outros. Para tanto, a proposta desta comunicação, primeiramente, é apresentar reflexões em torno desses conceitos emergentes. Além disso, buscamos apontar as convergências e divergências entre os diversos conceitos e, por fim, suas implicações para as pesquisas em Linguística de Texto e Multimodalidade e para o ensino de Línguas.

MULTIMODALIDADE NA MÍDIA: LEITURA E PERSPECTIVAS EM UM CONTEXTO EDUCACIONAL

Vânia Soares Barbosa (UFPI)

A crescente produção, disseminação e consumo de imagens, proporcionados pelos avanços tecnológicos, têm despertado o interesse de pesquisadores e educadores e levantado discussões a respeito da multimodalidade presente em eventos comunicativos, particularmente, em materiais didáticos de diferentes gêneros textuais, tais como anúncios publicitários, capas de revistas, jornais, entre outros. Com o suporte teórico de Kress (2010), Jewitt (2009) e Kress e van Leeuwen (2006), além de outros teóricos que discutem a multimodalidade no contexto educacional, nessa apresentação os fenômenos mencionados serão discutidos a partir de uma visão panorâmica da comunicação multimodal e de ferramentas que permitem análises facilitadoras de seu entendimento, tais como a Gramática do Design Visual (GDV). Em seguida, serão apresentadas propostas de leitura para dois anúncios publicitários e uma capa de revista. Essas propostas foram realizadas por oito alunos do Curso de Letras Inglês da UFPI como parte de uma intervenção pedagógica que teve como um dos objetivos diagnosticar o letramento visual daqueles participantes a partir da exposição dos mesmos às ideias da Gramática, em atividades de leitura integrada à prática da habilidade de ver (BARBOSA, 2017). Resultados apontaram o potencial da GDV como ferramenta facilitadora da leitura e a mudança de um conhecimento intuitivo para consciente do letramento visual por parte dos alunos participantes, à medida em que foram incorporando uma metalinguagem própria para a leitura de composições multimodais. Para finalizar, serão apresentadas perspectivas de pesquisas em multimodalidade no contexto de educacional do Século XXI.

A MULTIMODALIDADE NA LITERATURA PARA INFÂNCIA: DAS OBRAS ILUSTRADAS AOS LIVROS-APLICATIVOS

Juliana Pádua S. Medeiros (USP)

A literatura, como produto da linguagem, deve ser considerada sob a perspectiva de um complexo fenômeno de criação humana que se constrói indissociável da cultura, da história e da sociedade. A partir do século XXI, por exemplo, em razão dos avanços tecnológicos e do alargamento dos meios de comunicação, o projeto artístico das obras literárias destinadas para crianças ganha contornos ainda mais expressivos e criativos, de modo a privilegiar as múltiplas semioses. Assim, palavra, imagem, som e movimento imbricam-se na mesma tessitura, rompendo as fronteiras rígidas entre as linguagens e seus suportes. Esses novos arranjos textuais (aqui, tratados como multimodalidade) exigem, portanto, outros paradigmas de leitura, os quais pleiteiam um leitor que seja capaz de percorrer a multiplicidade de caminhos de significação. Nessa senda, pelas vias de acesso dos estudos multimodais, propõe-se uma conversa sobre as produções literárias contemporâneas para infância, buscando discorrer de que forma a leitura – enquanto uma experiência estética – garante a promoção de um olhar sensível acerca dos diferentes modos semióticos que se articulam na urdidura do livro: das obras ilustradas aos aplicativos. Para tanto, à luz de Belmiro (2010, 2012), Dionísio (2014), Rojo (2012) e Santaella (2004, 2005), serão apresentadas algumas dessas produções literárias, vislumbrando uma reflexão sobre a leitura de textos multimodais.

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